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"As pessoas estão comendo lixo na rua", diz chef brasileira na Venezuela

 
"Constituinte sem consulta é fraude" diz cartaz de manifestante contra o governo de Maduro em Caracas, em 5 de junho de 2017. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Quituteira de mão cheia, a baiana Teresa Trozzy, de 74 anos, insiste em continuar na Venezuela. Ela reconhece que a situação no país mudou muito desde que ela chegou para morar aqui quatro décadas atrás com toda a família. Há mais de dois meses a oposição se mantém nas ruas contra o governo de Nicolás Maduro. Este é apenas um dos pontos das diversas crises que o país enfrenta.

Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil em Caracas

A escassez deu um nocaute na produção da cozinheira brasileira mais famosa da Venezuela. Ela agora luta com a inflação, que, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, deve fechar o ano em torno de 1600%. O salário mínimo de 60 mil bolívares não é suficiente. “Feijão não se consegue ou então está caríssimo. A caixa de ovos está em 16 mil bolívares. Açúcar custa oito mil bolívares. Nos ofereceram “harina pan” (farinha de milho branco) por dez mil bolívares. Com o salário não dá. Tem que melhorar. Deus tem que olhar para a Venezuela”, afirma Teresa Trozzy.

O presidente, pressionado pela baixa popularidade, convocou uma eleição para escolher os redatores da nova Constituição, decisão rejeitada até mesmo por governistas, caso da Procuradora Geral da Venezuela, Luisa Ortega Díaz. A deterioração da situação econômica e social tem como consequência o aumento da pobreza no país e o surgimento de um fenômeno novo por aqui: pessoas que buscam alimentos entre os dejetos.

“Dá tristeza como está a Venezuela agora. As pessoas estão comendo lixo na rua. Eu achava que era mentira, mas não. Eles comem como se estivessem comendo um quitute. Triste”, constata Trozzy.

Remédios também estão em falta

O goiano Getúlio Clemente, que chegou na Venezuela em 2008 para estudar Medicina

A falta de produtos de cozinha também é acompanhada pelo desaparecimento de alguns remédios. O marido de Teresa, hipertenso, todos os dias deveria tomar um comprimido que agora não há no país. Ela precisou recorrer à sabedoria popular para não deixá-lo sem tratamento: "Meu marido é hipertenso e não está tomando nada. Apenas um alho, que dou a ele de manhã (para equilibrar a pressão), e não está tomando nada", afirma.

Leila Alves, de 38 anos, dá aulas de português na capital venezuelana. Saiu de Petrolina, em Pernambuco, há quase nove anos para morar em Caracas. Ela não pensa em voltar ao Brasil, só se algo muito grave acontecer por aqui. Segundo ela, só "se tiver uma guerra civil ou se não houver comida... No dia que eu passar fome eu não vou ficar aqui. Quando a situação apertar eu vou embora, mas eu gostaria de ficar aqui”.

A corrupção em comum

Embora Caracas e Brasília fiquem distantes uma da outra, de acordo com a professora, há pontos em comum entre ambas as capitais: “O governo brasileiro e o governo venezuelano, eles têm de muito parecido a corrupção. A vontade de estar no poder prevalece mais que a necessidade das pessoas. Isso é ruim. Eles parecem ser irmãos gêmeos. A diferença é que aqui os poderes estão com um governo só e lá no Brasil nós temos as partes separadas”, declara Leila Alves.

O processo para a Assembleia Nacional Constituinte já está em marcha e se o cronograma do Conselho Nacional Eleitoral for cumprido, a Venezuela deve realizar em 30 de julho a eleição dos constituintes. No entanto, esse processo não é visto com bons olhos. É o que espera o goiano Getúlio Clemente, que chegou na Venezuela em 2008 para estudar Medicina: "A esperança é a ultima que morre e eu acredito que isso ( a Assembleia Nacional Constituinte) não vai acontecer", afirma.

Nas ruas da Venezuela o clima é de apreensão sobre o que será o amanhã de um país que possui uma das maiores reservas de petróleo de mundo e que já foi sinônimo de prosperidade e de riqueza.

A baiana Teresa Trozzy, de 74 anos, insiste em continuar na Venezuela Elianah Jorge


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