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Em seu primeiro giro internacional, Trump se comporta como touro em loja de porcelana

Em seu primeiro giro internacional, Trump se comporta como touro em loja de porcelana
 
Sobre a participação do presidente Donald Trump na cúpula do G7 de Taormina (Sicília), Gary Cohn, que é seu conselheiro econômico, explicou que o presidente "veio para aprender e a posição adotada será a melhor para os Estados Unidos". REUTERS/Tony Gentile

Bem-vindos ao mundo estulto e brutal de Donald Trump. Na sua primeira viagem para encontrar os principais aliados ocidentais dos Estados Unidos, o magnata-presidente se comportou como um touro numa loja de porcelana.

 

O lourão da Casa Branca começou dando um show de machismo rústico na cúpula da Aliança Atlântica: apertos de mão que mais pareciam quedas de braço para humilhar o interlocutor, um empurrão – que merecia cartão vermelho – no presidente do Montenegro, e um discurso agressivo acusando todo o mundo de estar devendo dinheiro aos Estados Unidos, esquecendo que as contribuições à OTAN são voluntárias.

Trump se recusa a confirmar adesão ao artigo V

Trump também recusou-se a confirmar – como é de praxe nesse tipo de reunião – a adesão ao Artigo V da Aliança que estipula que, em caso de agressão, todos os países membros devem socorrer o país agredido. Claro, os americanos sempre reclamaram – e com razão – da insuficiência dos orçamentos militares europeus. Mas não é ameaçando engavetar as responsabilidades da defesa comum que o problema vai ser resolvido. Sobretudo que a OTAN é o principal instrumento externo da política de segurança dos Estados Unidos.

Mas isso foi só um aperitivo. Na cúpula do G7 em Taormina, o “Donald” demonstrou uma perfeita ignorância com relação aos temas em discussão. A tal ponto, que no final, o seu assessor de imprensa declarou que o presidente tinha vindo só para aprender. E que tinha aprendido muito. Já era hora e, na verdade, ele ficou calado. Dando de vez em quando um pontapé na mesa. Dada as circunstâncias, os outros líderes até que saíram aliviados por terem conseguido um comunicado final sem grandes novidades, mas também sem estardalhaços por parte de Washington.

O presidente americano aceitou o conceito de luta comum contra o terrorismo mas, claro, não quis nem falar de gestão dos fluxos migratórios. Também aprovou manter as sanções contra a Rússia pela invasão da Ucrânia e, mais importante ainda para todos, concordou em condenar o protecionismo e aceitar a Organização Mundial do Comércio como instância reguladora do comércio internacional. Isto depois de dar um coice na Alemanha, declarando, num “tuite”, que as exportações alemãs para os Estados Unidos eram “very bad”.

No final das contas, o único tropeço feio foi a questão da permanência dos Estados Unidos como membro do acordo de Paris sobre a mudança climática. Ninguém entendeu porque Trump precisava de mais uma semana para decidir sim ou não. Como vem acontecendo nos últimos tempos, foi a chanceler alemã, Angela Merkel, que peitou o lourão, declarando que a discussão sobre o clima tinha sido “muito insatisfatória”.

Quando o G7 foi criado, no princípio dos anos 1970, tratava-se de um pequeno clube dos principais países democráticos industrializados no qual os líderes podiam conversar de maneira informal sobre os destinos do planeta. A ideia não era tomar decisões ou elaborar programas para administrar o mundo.

O objetivo era promover visões e valores compartilhados para facilitar a cooperação entre os estados membros e para estabelecer agendas de discussão com o resto da comunidade internacional. Depois do final da Guerra Fria, a Rússia foi convidada. Mas, com Vladimir Putin, foi desconvidada: ninguém acredita mais na possibilidade de compartilhar valores e visões com o Kremlin. Nem com Pequim, aliás.

Com G7, G20 ficou na sombra

Com a crise financeira global, apareceu o G20, e o G7 ficou na sombra. Só que agora, o G20, pletórico demais, perdeu a razão de ser e o G7 voltou à ribalta. É claro que o mundo da revolução tecnológica e da globalização da produção e do consumo precisa de um espaço de diálogo consensual entre as principais economias e democracias do planeta. O problema é saber se os Estados Unidos de Trump ainda querem participar nessa discussão. Ou se o slogan “America First” quer dizer “que se dane o resto do mundo”. Uma atitude boçal que só pode favorecer a guerra de todos contra todos.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, assina uma crônica de política internacional às segundas-feiras na RFI


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