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Corrupção no Brasil leva Argentina a ter a sua própria Lava Jato

Corrupção no Brasil leva Argentina a ter a sua própria Lava Jato
 
Odebrecht na Argentina: tentáculos da Lava Jato podem tumultuar ano de eleições legislativas. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

A Procuradoria de Investigações Administrativas da Argentina tem na mira 98 empresas ligadas às envolvidas com a corrupção no Brasil. É a versão argentina da operação Lava Jato.

Os US$ 35 milhões que a Odebrecht confessou ter pago na Argentina, entre 2007 e 2014, podem ser apenas o começo de um submundo de subornos muito maior. A investigação preliminar concentra-se nas construtoras brasileiras Odebrecht, Camargo Correa e Andrade Gutierrez. Também nas argentinas Contrera Hermanos e Techint porque as suas filiais, no Brasil, aparecem envolvidas, respectivamente, no esquema de propina da Petrobras e da Eletronuclear. Associadas a essas cinco empresas principais, aparecem outras 93 firmas locais que tiveram obras contratadas pelo Estado argentino.

O responsável pela Procuradoria de Investigações Administrativas, Sergio Rodríguez, explica à RFI Brasil que o objetivo é saber se o mesmo esquema de propina no Brasil foi reproduzido na Argentina.

"Temos a suspeita de que a engenharia que a Odebrecht desenvolveu para pagar os subornos no Brasil pode ter sido usada aqui. Se essa engenharia teve sucesso no Brasil, por que não a utilizar aqui também?", questiona-se. "São 98 empresas investigadas, mas o número pode aumentar quando o Brasil e os ministérios argentinos me responderem", prevê.

Força-tarefa binacional

É tanto volume de informação e tantas informações cruzadas entre os países envolvidos que, em breve, Brasil e Argentina terão um equipe de investigação bilateral.

Além disso, numa tentativa de avançar paralelamente, Sergio Rodríguez vai articular uma ponte com a Procuradoria peruana para cruzar informações.

"Devemos reunir-nos em breve para cruzarmos informações e para vermos como foi o acordo que eles fizeram com a Odebrecht no Peru, sempre que a confidencialidade permitir", antecipa Rodríguez. "Até agora, estamos muito dependentes das informações que o Brasil envia", admite.

No mês passado, o investigador argentino esteve em Brasília para uma reunião entre os representantes dos Ministérios Públicos de 11 países para definir a cooperação jurídica internacional contra a corrupção. Ficou decidido a formação de equipes bilaterais ou multilaterais de investigação sobre a Odebrecht e sobre outras empresas no âmbito da Lava Jato.

Em janeiro passado, Sergio Rodríguez pediu que a força-tarefa da Lava Jato enviasse tudo o que pudesse ter vínculo com a Argentina, incluídas as delações dos executivos da Odebrecht.

Internamente, Sergio Rodríguez pediu informação aos ministérios argentinos, ao Tesouro e ao departamento de orçamento do ministério da Fazenda sobre todas as obras e pagamentos realizados entre 2006 e 2015.

Os nomes dos investigados na Argentina giram em torno de membros do governo da ex-presidente Cristina Kirchner. São, por exemplo, o ex-ministro de Planejamento, Julio de Vido e o ex-secretário de Transporte, Ricardo Jaime, já preso por outras denúncias de corrupção.

O presidente Mauricio Macri diz que, se a Odebrecht confessar a quem pagou propina, poderá continuar na Argentina. "Se eles colaborarem em esclarecer quem recebeu os 35 milhões de dólares, se confessarem com quem fizeram transações na Argentina, no futuro poderão continuar trabalhando", indica Macri.

Parentes de Macri na mira da investigação

Mas a imagem do presidente Mauricio Macri poderia sair afetada através da sua família: em algumas obras, a Odebrecht fez parcerias com a empreiteira argentina IECSA que pertence a Ángelo Calcaterra, primo do presidente Macri. A IECSA pertencia ao pai de Macri, Franco Macri, até 2007, quando o hoje presidente começou a governar o Distrito Federal de Buenos Aires.

"Vamos analisar todo o quadro societário da empresa", indica Rodríguez.

As informações mais cruciais, no entanto, chegarão à Argentina a partir de 1º de junho, quando vence a cláusula de confidencialidade das delações premiadas no acordo entre a Justiça brasileira e a Odebrecht sobre atos de corrupção praticados pela empresa no exterior. O fim desse sigilo pode causar um terremoto político na Argentina que estará em plena campanha eleitoral para as eleições legislativas de outubro.

"Eu não descarto nada", conclui Sergio Rodríguez, responsável pela Procuradoria de Investigações Administrativas.


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