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Ataques de Trump à imprensa favorecem "mídias responsáveis"

Ataques de Trump à imprensa favorecem
 
O presidente Donald Trump voltou a atacar a imprensa pelo Twitter nesta sexta-feira (17), classificando as grandes emissoras de televisão e o jornal The New York Times de "inimigos dos americanos". @realDonaldTrump

É atacando a liberdade de imprensa “que os ditadores começam”, declarou o senador republicano conservador John McCain, pouco depois que Donald Trump chamou a mídia de “inimigo do povo americano”. Quem jamais havia pensado que este tipo de polêmica poderia acontecer nos Estados Unidos?
 

No mundo inteiro, o jornalismo está começando a ter uma imagem suspeita. Claro, os políticos nunca gostaram de informação independente – quando fala mal deles... Mas sempre adoraram quando é o adversário que se enrola no noticiário. O vazamento de informações comprometedoras é um velho esporte de qualquer governo – ou oposição – que se preze. Mas agora, boa parte das populações também desconfia do trabalho dos jornalistas.

As novas tecnologias da informação e as redes sociais têm muito a ver com isso. Não há mais governo, partido político, empresa e até ONG, que não tenha um serviço de relações públicas sofisticado para influenciar a mídia com suas próprias “verdades”. Mas o golpe de misericórdia vem das televisões a cabo e dos Facebook, Twiter e Youtube da vida que estão solapando a credibilidade do jornalista.

A missão primeira do professional da informação é filtrar e verificar as notícias e os fatos. Claro que as preferências ideológicas, declaradas ou implícitas existem. Mas o trabalho é evitar a publicação de mentiras e falsidades. O nome do bom jornalismo, inclusive partidário, é “transparência”. Só que hoje, cada um pode escolher, num universo quase infinito, os canais que mais lhe apetecem. Melhor ainda: pode produzir a própria informação e jogar nas redes sociais sem nenhuma comprovação.

Muitos acreditam que é um avanço democrático já que todos estão “empoderados” para enfrentar a falsificação das informação pelos poderosos. Mas nessa democracia de Alice no país das maravilhas cada um só vai buscar as fontes e as ditas “notícias” que lhe agradam, criando “bolhas” sociais e ideológicas que nunca se confrontam com opiniões ou até fatos diferentes. As redes estão inundadas de factoides e manipulações que circulam e morrem com a rapidez de relâmpagos, mas que se transformam em “verdades” para grupos cada vez mais fechados.

O drama é que a mídia tradicional, com medo de perder a guerra da informação, sai correndo atrás dessas pseudonotícias sem tempo para verificar a exatidão. Os canais de televisão e rádio de informação “24 horas no ar”, são obrigados a encher linguiça, pegando qualquer notícia – por mais anódina que seja –comentando e dando importância por horas a fio. Sem falar na indústria das sondagens de opinião que desovam resultados quase diariamente que viram alimento base dos comentadores.

Mesmo se no dia seguinte os resultados são completamente diferentes. O ecossistema da informação, novo e tradicional, está se transformando num faroeste sem lei nem regra, onde qualquer coisa vale tudo, alimentando o ódio entre grupos de opinião cada vez mais fechados e intolerantes. E a primeira vítima é a própria realidade: estamos era da “pós-verdade” e dos “fatos alternativos”.

Essa situação é prato cheio para governos e dirigentes autoritários. A Rússia de Vladimir Putin, com sua televisão global, a sua agência Sputnik e seus hackers já conseguiu interferir pesadamente nas eleições presidenciais americanas e agora, está tentando manipular os próximos pleitos na Europa, inclusive com notícias abertamente falsas. Os partidos da extrema-direita nacionalista europeus – e também da extrema-esquerda – estão seguindo pelo mesmo caminho, criando verdadeiras histerias sociais que não tem nada a ver com fatos reais. A confiança em qualquer tipo de informação vem degringolando.

A boa notícia é que a confusão e a manipulação são tão ferozes que muita gente começa sentir saudades de uma mídia séria que procura e verifica as notícias, e que é capaz de publicar vários pontos de vista e opiniões, sem mentiras e insultos. Tomara! Cada vez que Donald Trump ataca a imprensa, as assinaturas e a audiência da mídia séria e responsável disparam.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI


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