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2016: Vitória de Trump muda geopolítica mundial

2016: Vitória de Trump muda geopolítica mundial
 
Donald Trump foi eleito presidente dos EUA REUTERS/Jonathan Ernst

O ano de 2016 foi especialmente intenso nos Estados Unidos. Os eleitores americanos escolheram o sucessor de Barack Obama e, para surpresa de analistas políticos, institutos de pesquisa e da grande imprensa, o vencedor da disputa foi o empresário Donald Trump, do Partido Republicano, que jamais teve cargo político anteriormente. Ele venceu a democrata Hillary Clinton, a candidata de Obama.

Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York

O peso histórico da chegada de Trump ao poder na maior potência do planeta ofuscou os outros fatos de 2016 nos EUA. O Partido Republicano volta à Casa Branca ao mesmo tempo em que controla também o Senado e a Casa dos Representantes, algo que não se via desde 2005, no governo de George W. Bush.

Tamanha guinada à direita tem enormes consequências diretas para os americanos e também para o planeta. Trump venceu as primárias republicanas com um discurso nacionalista, contra a classe política, se apresentando como o campeão dos que foram deixados de lado pela globalização nas últimas três décadas.

Ele conseguiu vencer o Colégio Eleitoral no mês passado, com a ajuda decisiva da classe média-baixa em estados que sofreram diretamente com o processo de desindustrialização dos EUA, especialmente Pensilvânia, Ohio, Wisconsin e Michigan, locais onde Obama venceu em 2008 e 2012.

Trump foi vitorioso apesar de atacar minorias étnicas e religiosas, de não receber o apoio de nomes importantíssimos de seu partido, de manter um discurso xenófobo (apesar de explorar o trabalho mais barato de asiáticos e hispânicos em suas empresas), de jamais ter revelado detalhes sobre seu imposto de renda, praxe entre candidatos ao Executivo aqui nos EUA, e de ter sido acusado de assédio sexual por uma dezena de mulheres.

Sem uma linha ideológica clara, com um ministério formado por amigos próximos, colegas bilionários e figuras alienígenas ao meio político e, de acordo com a maioria das pesquisas, sem o apoio popular de 50% dos americanos, o furacão Trump entra 2017 ainda assustando analistas e acadêmicos.

Hillary venceu no voto popular

A eleição pôs em cheque a democracia americana. Hillary Clinton venceu no voto popular com quase 3 milhões de diferença, uma vantagem de 2,1%, e mesmo assim não se tornou a primeira mulher presidente dos EUA. Nunca um candidato à presidência nos EUA teve tamanha vantagem em votos absolutos sobre seu adversário direto e não chegou à Casa Branca.

Desde 1876, um candidato vitorioso não se elegia nos EUA com votação tão minguada. Foi uma vitória apertada, marcada por vantagens pequenas, de cerca de 1% dos votos, em favor de Trump, nos estados-chave.

Mas, além do Colégio Eleitoral, um sistema arcaico que data do século 18, a democracia americana também ficou na berlinda por conta da revelação de que hackers russos interferiram nos resultados ao invadir os computadores do Partido Democrata e divulgar, com a ajuda do Wikileaks, e-mails que prejudicaram a candidatura Hillary.

A esquerda do Partido Democrata, fortalecida com a impressionante demonstração de força do senador Bernie Sanders, que deu muita dor de cabeça a Hillary durante as primárias, foi quem mais bateu nas duas teclas: a de que é preciso respeitar a vontade da maioria da população, com a necessidade de se acabar com o Colégio Eleitoral, e a de que o grande vitorioso das eleições mais importantes do planeta acabou sendo Vladimir Putin.

Tabuleiro da geopolítica global

2016 mudou tanto o cenário político e social americano quanto o tabuleiro da geopolítica global. Nos EUA, de imediato, podemos pensar, a partir de janeiro, no corte radical de programas sociais e de combate às desigualdades econômicas; no fim anunciado do Obamacare, o programa de reforma da saúde pública e menina dos olhos do governo Obama, que até dezembro conseguiu que 30 milhões de americanos passassem a ter seguros de saúde; o combate ao direito ao aborto; nomeações de juízes conservadores para posições estratégicas no Judiciário em todo o país; fim de restrições ambientais; e menos regulamentação para o setor financeiro.

No âmbito externo, a nova Secretaria de Estado, comandada, exatamente como no caso da presidência, por um cidadão sem qualquer experiência anterior na área, no caso o ex-presidente da ExxonMobil, Rex Tillerson, próximo a Putin, deve reposicionar os EUA no planeta, dando mais atenção a questões comerciais do que diplomáticas.

Mas uma das mudanças ideológicas mais imediatas será o apoio incondicional a Israel no Oriente Médio. Esta semana, o atual comandante da política externa americana, o democrata John Kerry, fez, não por acaso, a mais dura condenação do incremento de assentamento de colonos israelenses na Cisjordânia e no lado oriental de Jerusalém, apresentado como “seria ameaça à criação de dois estados, única maneira de se garantir a paz na região”.

Trump, usando as redes sociais, um marco de sua candidatura em 2016, mandou um recado que é a cara da nova administração escolhida pelos americanos este ano para governar o país: “Fique firme, Israel! Dia 20/1 já está chegando”!


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