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República Democrática do Congo não consegue conter ebola e registra novas contaminações

República Democrática do Congo não consegue conter ebola e registra novas contaminações
 
Vacinação em um centro de saúde de Goma, na República Democrática do Congo. REUTERS/Djaffer Sabiti

Exames confirmaram, no fim de semana, que pelo menos mais doze pessoas estão com ebola em Goma, capital da província Kivu do Norte, onde a doença já matou duas pessoas nas últimas semanas. A cidade tem quase dois milhões de habitantes e é onde fica a fronteira da República Democrática do Congo com Ruanda. Autoridades anunciaram que, na última sexta-feira (2), seis pessoas foram liberadas pelos médicos depois que os resultados de seus exames deram negativo e revelaram que elas não haviam contraído a doença, como se suspeitava. 

Vinícius Assis, correspondente da RFI em Joanesburgo 

Além dos novos casos que podem surgir nos próximos dias - devido à divulgação de resultados de exames de pessoas que estão em observação -, equipes médicas estão preocupadas com a falta de leitos para atender os pacientes. Quando um caso é confirmado, o paciente deixa o hospital e vai para centros especialmente montados para este tipo de tratamento, onde fica isolado.

Atualmente existem desses centros recebendo pacientes. Até os profissionais que trabalham nesses locais utilizam roupas especiais para ter o mínimo contato possível com quem está internado. 

10° surto de ebola na República Democrática do Congo

Este é o décimo surto de ebola enfrentado pelo país desde que o primeiro caso foi detectado, na década de 70, e o segundo mais mortal da história. O foco está na região leste do país. Em pouco mais de um ano já foram registrados 2.671 casos, sendo que apenas 94 ainda não foram confirmados. Exames já confirmaram que o ebola matou desde o ano passado 1.696 pessoas na República Democrática do Congo. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS), que declarou situação de emergência internacional no país, tem divulgado relatórios semanais sobre o problema. A taxa de confirmação entre os casos - até então - suspeitos tem sido alta. Para se ter uma ideia, do penúltimo relatório semanal para o último, houve uma diferença de 79 novos casos e 47 mortes a mais. 

Do total de 2.671 casos registrados até o último relatório oficial, as mulheres representam 56% (1.500). E 28% (758) são crianças e adolescentes. Trabalhadores da área de saúde representam 5,5% do total (146). Existem oito laboratórios com capacidade de diagnóstico do vírus ebola em operação na República Democrática do Congo. Estão em Mangina, Goma, Komanda, Beni, Butembo, Katwa, Bunia e Kinshasa, a capital do país. 

Obstáculos para conter a doença

Quase 180 mil pessoas foram vacinadas. A quantidade de doses da vacina que está sendo distribuída para a população das áreas onde os casos estão sendo registrados não é suficiente para imunizar todo mundo. E esta vacina também não é 100% eficaz. Para piorar, há uma resistência por parte da população em receber a vacina. 

De acordo com a OMS, um terço das mortes aconteceu fora dos centros de atendimento especializados. Quase todas são vítimas que optaram por não receber a vacina nem se cuidar com equipes médicas, normalmente por desconfiança ou crença religiosa. 

A violência no país também tem sido um grande obstáculo para as equipes de saúde. Na República Democrática do Congo há mais de 140 grupos armados em plena atividade, disputando - quase sempre - o controle da produção mineral do país. 

Desde janeiro, houve cerca de 200 ataques contra centros de tratamentos, que deixaram mortos e feridos. Sem falar no aumento da sensação de insegurança entre equipes de saúde, que muitas vezes precisam chegar a vilarejos distantes dos centros urbanos e não conseguem. Mais da metade da população congolesa vive em áreas rurais. 

Preocupação nos países vizinhos

A República Democrática do Congo faz fronteira com 9 países, que - diante dessa situação - foram divididos em dois grupos de prioridades. Quatro desses países se encontram no grupo 1, onde é maior o nível de preocupação: Burundi, Ruanda, Sudão do Sul e Uganda. 

Autoridades da Ruanda - onde 15 distritos estão em alerta - chegaram a fechar na semana passada, por aproximadamente quatro horas, a fronteira do país com o Congo, por onde passam milhares de pessoas todos os dias. Os congoleses formam a maior parte dos 148 mil refugiados que vivem na Ruanda. Cerca de três mil profissionais de saúde foram vacinados. Atuam nessas áreas que estão em alerta, onde há 185 centros preparados para receber eventuais pacientes com ebola. 

Como ao menos duas mortes por ebola já foram registradas em Uganda, as autoridades do país estão agindo para evitar mais contaminações. Foram casos de pessoas que cruzaram a fronteira com o Congo. Morreram uma senhora e o neto dela. Eles estavam em um grupo de seis pessoas da mesma família que saíram de Uganda e foram até o congo para o velório de um parente que morreu exatamente após ter contraído o vírus. As duas outras vítimas voltaram para Uganda contaminadas. Dezenas de pessoas que tiveram contato com elas foram isoladas e colocadas em observação. 

O governo já vacinou 4915 profissionais de saúde que atuam em 150 unidades. Trinta províncias estão em estado de atenção. 

O Sudão do Sul vacinou 2554 pessoas que trabalham na fronteira do país com o Congo, além de ter reforçado o treinamento dos profissionais de saúde para identificar a doença, através dos sintomas, o quanto antes. O governo de Burundi informou que está agilizando o processo de imunização no país.

A OMS também está providenciando vacinas para serem distribuídas nos cinco países da categoria 2 de prioridade (Angola, República Centro Africana, Congo, Tanzânia e Zâmbia). Assim que este surto de ebola foi considerado uma emergência internacional - o que não significa uma ameaça global -, a OMS pediu que países não interrompam negócios nem restrinjam vôos para a República Democrática do Congo para não prejudicar a economia do país. O Itamaraty só recomenda viagens para este país se forem realmente necessárias. 


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