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África

Tortura, estupro e tatuagem: o drama da adolescente Khadija revolta o Marrocos

media Khadija, 17 anos, afirmou ter sido sequestrada, estuprada, torturada e tatuada à força durante dois meses por um grupo de 10 homens. Capture d'écran / Youtube.com

Uma onda de reações indignadas inundou as redes sociais do Marrocos após a publicação do calvário de uma adolescente. Khadija, 17 anos, afirmou ter sido sequestrada, estuprada, torturada e tatuada à força durante dois meses por um grupo de 10 homens. Após a revelação do caso, 12 pessoas foram presas por violência contra menor, estupro e tortura. O julgamento deve começar no próximo dia 6 de setembro.

Sara, Doublier, correspondente da RFI em Rabat

O caso causou tanta muita reação nas redes sociais quando o escândalo estourou na Internet, com a divulgação do testemunho assustador da jovem Khadija, que, com o rosto escondido, mostrava seus braços e pernas com tatuagens grosseiras e queimaduras de cigarro.

Muito rapidamente, as hashtags #JusticePourKhadija e #WeAllAllKhadija viralizaram nas redes sociais. A reação dos internautas foi variada. De um lado, vários pedidos de prisão dos supostos criminosos, mas também campanhas de apoio aos mesmos. Médicos e associações ofereceram ajuda à adolescente, como a possibilidade de realizar a eliminação de tatuagens por dermatologistas, acompanhamento psiquiátrico e vaquinhas online. As iniciativas se multiplicaram por parte da população.

“Campanha de difamação”

Posteriormente, a versão contraditória das famílias dos suspeitos presos pela polícia marroquina chegou a semear dúvidas nas redes sociais. Parentes e amigos dos acusados deram a sua versão dos fatos, descrevendo uma menina com moral depravada, que se envolvia em prostituição e escarificação por vontade própria.

"Se meu filho realmente tivesse abusado dessa garota, eu o teria levado pessoalmente à delegacia", diz uma das mães dos réus. Mas, para muitos, a reação das famílias é uma "campanha de difamação [contra a adolescente Khadija]", como afirmou o internauta Lylou Slass, um marroquino de Casablanca que viajou a Oulad Ayad, no centro de Marrocos, para se encontrar com a garota.

Casos de estupro com menores no Marrocos

Infelizmente, casos de estupro com garotas menores de idade, muitas vezes filmados e divulgados online, são comuns no Marrocos. Os marroquinos, muito conectados à Internet, agora utilizam as redes sociais para divulgar sua indignação.

A mobilização da opinião pública permitiu, em vários casos, acelerar a prisão dos agressores, mas pode também mudar a lei. Este foi o caso em 2014, após o suicídio de Amina Filali, forçada a se casar com seu estuprador, como permitia então a lei. Desde então, o texto foi revogado.

A mobilização nas redes sociais também liberou a fala dessas jovens abusadas, assediadas, muitas vezes constrangidas pelo tabu social à lei do silêncio. De fato, o número de queixas de estupro registradas no tribunal dobrou no ano passado, um sinal de que as vítimas estão usando cada vez mais a Justiça para fazer valer seus direitos.

"Somos todos Khadija"

Escritores, artistas, sociólogos e personalidades marroquinas publicaram nesta terça-feira (28), no jornal francês Libération e em vários meios de comunicação do país africano, em francês e em árabe, um editorial que conclama à reação imediata após o calvário de Khadija.

"Somos todos Khadija", disseram os intelectuais marroquinos, protestando contra a impunidade dos estupradores e contra o silêncio do Estado. Entre os signatários, detaca-se a presença da escritora Leila Slimani, premiada com o Goncourt na França por seu livro “Chanson Douce”, publicado no Brasil pela editora Tusquets com o título “Canção de Ninar”.

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