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Brasileira e negro zulu, casados há 13 anos, comparam o racismo no Brasil e na África do Sul

Brasileira e negro zulu, casados há 13 anos, comparam o racismo no Brasil e na África do Sul
 
A carioca Ana Terra Skosana é casada com o sul-africano, Tshepo Skosana, que pertence a etnia zulu, o maior grupo étnico do país. arquivo da família Terra Skosana

A carioca Ana Terra Skosana, casada com o sul-africano Tshepo Skosana, membro da etnia zulu, o maior grupo étnico da África do Sul, considera que ainda existem fortes discriminações contra os negros mais de duas décadas depois do fim do Apartheid, o regime de segregação racial. O casal multirracial recebeu a reportagem da RFI em sua casa em Joanesburgo.

Kinha Costa correspondente da RFI na África do Sul

Na época do regime de supremacia branca, eles seriam um casal ilegal e sujeitos a multa ou prisão, porque existia a Lei de Imoralidade que proibia qualquer relação afetiva, sexual ou o casamento entre pessoas de diferentes raças. Felizmente, com o fim do regime separatista, essa e outras leis foram extintas e, hoje, a África do Sul tem uma Constituição (1996) considerada uma das mais modernas do mundo.

No entanto, os resquícios do antigo regime ainda são muito evidentes, apesar dos novos tempos, do esforço do governo e da sociedade para integrar seu povo e criar a Nação Arco-Íris, tão sonhada por Nelson Mandela. A grande maioria da população de 56 milhões de sul-africanos continua vivendo separada em grupos raciais.

As famílias multirraciais ainda causam desconforto, desdém, pena, cochichos e as mais inesperadas e bizarras reações, como a do juiz de paz, branco, que não queria realizar o casamento deles. Muitos africânderes, como são chamados os descendentes dos holandeses que colonizaram a região, ficam indignados porque pensam que Ana é sul-africana e, portanto, descendente de holandeses. Negros de diferentes etnias também estranham o casal, pela razão mesma razão, como se ela estivesse casada com um inimigo. 

O casal se formou sem pensar em cor de pele, racismo e discriminação. Ela, com 19 anos, brasileira e branca. Ele, com 21 anos, negro, sul-africano, zulu. Para dois jovens apaixonados nada demais. Para a estrutura familiar e a sociedade em geral, um bicho de sete cabeças.

Ana e Tshepo se depararam com o racismo desde o início. O casal teve que amadurecer e lidar com o preconceito racial dos seus pais e familiares. E identificar o racismo brasileiro, que não é explícito, mas que está enraizado na sociedade. Não foi fácil enfrentar a rejeição familiar, a dissimulação social, os olhares e os comentários sem sutileza.

Expulso de casa pelo pai da noiva

“No Brasil foi duro. Na África do Sul, eu era somente um jovem mimado que vivia em uma bolha. O racismo era algo sabido, mas nunca vivido explicitamente. Me perceber rejeitado pela família da moça por quem estava apaixonado, foi chocante", conta Tshepo.

Por ter a pele clara, ele era considerado mulato no Brasil, e a questão profunda e discriminatória ficava escondida, apesar dos seus dreadlocks. A discriminação se manifestava em situações simples. Por exemplo, a família de Ana não entendia por que o jovem negro sul-africano, que mais parecia um garoto das favelas cariocas, escolheria morar em Ipanema, bairro chique da zona sul do Rio de Janeiro. Ser fino, instruído, educado e ter bom gosto não estava no programa.

"Um dia, o pai da Ana me expulsou da casa dela. Era carnaval, sem ter para onde ir, fiquei dois dias perambulando pelas ruas do Rio", se recora Tshepo. "Mas, revendo tudo, acho que tivemos sorte. Sem falar português, arrumei um emprego bacana, em uma empresa de assessoria financeira para expatriados, que viviam no Rio de Janeiro. Com um bom salário. Foi aí que mandamos todos às favas. Fomos morar juntos, num bairro bucólico da Zona Sul do Rio de Janeiro, em um apartamento no bairro do Cosme Velho. Tenho um carinho enorme pelo Brasil. Tudo que acontece lá me afeta, porque foi no Brasil que me tornei o homem que sou.”
 

"No Brasil, as discriminações são de classe social"

Na África do Sul, os familiares zulus, o maior grupo étnico do país, são orgulhosos de sua cultura e tradições. Ritos que para muitos são caducos, como o dote que o rapaz tem que pagar aos pais da noiva, o teste de virgindade para as meninas ou ser reservado ao pai do noivo o direito de escolher o nome do primeiro filho do casal.

Ana e Tshepo dispensaram formalidades e tradições e criaram o núcleo familiar baseado em seus valores e suas formas de ver o mundo. Eles sofreram e sofrem, mas o casal tem encontrado mais paz e sossego depois de 13 anos juntos. Não que a aceitação seja plena e que, por alguns momentos, eles possam esquecer que têm uma família diferente. Mas, porque sabem que mudanças estruturais demoram muito tempo e que a luta é diária.

E que por terem um filho, planejado e esperado, precisam olhar para o futuro com esperança. Para Ana, “o racismo na África do Sul é bem claro. As etnias que existem no país são diferentes e as pessoas se identificam com quem gostam e com quem desgostam.

É assim que ela vê as pessoas se expressando, quando são racistas. Para Ana, "no Brasil, as discriminações são voltadas para a classe econômica, a posição social. A situação geográfica também influencia. Se é nordestino, sulista ou nortista. Um branco pode hostilizar outro branco por ele ser mais pobre. Ou um negro ser racista com um pardo, porque ele é nordestino e o outro carioca", comenta. 

O racismo brasileiro tem similaridades com o sul-africano, mas é mais "hipócrita” na avaliação de Ana. Já para Tshepo, na África do Sul, “a discriminação é bem visível. A gente tem que viver com isso todos os dias. É um assunto bastante discutido aqui. Acho que temos que estar somente abertos para lidar com tão importante e delicado assunto”.

Na África do Sul, a segregação é feita pela cor. No Brasil a miscigenação é um fato, mas infelizmente é uma faca de dois gumes porque disfarça o racismo existente, estima a brasileira.


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