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África

Para Guterres, acabar com escravidão na Líbia depende de cooperação forte

media O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. AFP/Florent Vergnes

A 5ª Cúpula da União Africana e União Europeia adotou nesta quinta-feira (30) em Abidjan uma série de medidas de urgência para combater a escravidão de imigrantes na Líbia. Em entrevista exclusiva à Cristiana Soares, jornalista da RFI, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse que líderes dos dois continentes estão de acordo para iniciar a retirada urgente dos migrantes que quiserem deixar a Líbia.

Para o secretário-geral da ONU, só uma forte cooperação internacional entre serviços de inteligência e de polícia de países europeus e africanos poderá evitar que as imagens reveladas pela emissora CNN - de imigrantes negros sendo vendidos como escravos na Líbia - se repitam. "É preciso combater os traficantes e os contrabandistas, não adianta levar aos tribunais apenas os peixes miúdos", explicou Guterres. "Colocar os barões do tráfico humano na cadeia e acabar com essas multinacionais do crime exige forte cooperação", insistiu.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres em entrevista exclusiva à RFI. 30/11/2017 Ouvir

 Guterres também defendeu uma política de cooperação para que os movimentos migratórios, "que são necessários e sempre existiram", aconteçam "de forma regular, legal e humana, protegendo os direitos dos migrantes". "É preciso levar em conta a necessidade de mão-de-obra nos países europeus; de um lado favorecer a mobilidade e de outro permitir a fixação das populações em seus próprios países", explicou.

Retirada urgente de 3.800 migrantes

Pelo menos 3.800 migrantes foram identificados para deixar rapidamente a Líbia. A maioria deles são provenientes de países do oeste da África. Eles foram descobertos vivendo em condições desumanas num gueto perto de Trípoli, segundo o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat. O dirigente não sabe ao certo quantos imigrantes negros que sonhavam em chegar à União Europeia se encontram atualmente bloqueados na Líbia. "Mas devem ser entre 400 mil e 700 mil pessoas", estima Mahamat.

O presidente francês, Emmanuel Macron, que definiu a situação dos africanos escravizados na Líbia como um crime contra a humanidade, confirmou que os líderes presentes em Abidjan decidiram criar uma força policial específica para identificar os traficantes e nomear uma comissão investigadora. Cerca de 80 chefes de Estado e de governo e 5.000 delegados participaram do encontro. Também ficou decidido desenvolver uma campanha de comunicação para dissuadir os jovens africanos que quiserem emigrar.

"Decidiu-se organizar uma cooperação reforçada em matéria de segurança e inteligência para desmantelar as redes de traficantes", informou o presidente francês. Nesse sentido, será organizada "uma força-tarefa operacional que vai associar os serviços policiais e de inteligência" para "desmantelar as redes e seu financiamento", acrescentou. Os "traficantes de seres humanos" estão "profundamente vinculados aos traficantes de armas, de drogas e aos movimentos terroristas que operam em toda a faixa sahelo-saariana", completou Macron. No final, Macron disse que "é indispensável reconstruir um Estado perene na Líbia".
   
Durante a abertura da cúpula, o presidente da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, pediu aos jovens que não se lancem à aventura da imigração, colocando suas vidas em risco. Cerca de 60% da população africana tem menos de 25 anos e, a cada ano, milhares de jovens desesperados com o desemprego, a pobreza e a ausência de perspectivas buscam emigrar para a Europa.

Malinês de 16 anos descreve organização do tráfico

Entrevistado pela emissora France 24, o adolescente malinês Issa, de 16 anos, contou o calvário que viveu. Ele esteve retido como escravo na Líbia, conseguiu escapar do inferno e se recupera das torturas que sofreu no hospital Pitié Salpêtrière, em Paris.

Com o corpo coberto de cicatrizes causadas por queimaduras de cigarros e choques elétricos, além dos joelhos destruídos a ponto de mal conseguir ficar em pé, Issa diz que os barões do tráfico são "líbios de pele clara".

Ele conta que iniciou sua caminhada para a Europa pela cidade de Agadez, no Níger, um reduto de traficantes. Essa rota, que depois atravessa o deserto, é "o caminho mais rápido para se chegar à Líbia". Em Agadez, os migrantes conhecem rapidamente homens que chamam de "coaxers" ou "cooxers". São negros como eles, geralmente marfinenses, guineanos e camaroneses, de fácil contato e que prometem levar os jovens até a costa mediterrânea. Quando eles embarcam nas pick-ups para atravessar o deserto, conta Issa, a maioria dos jovens já foi vendida na Líbia.

Chegando no país, onde perdura o caos político e de segurança desde a queda do ex-ditador Muamar Kadafi, os jovens migrantes são levados para guetos de escravos instalados em meio às casas, no centro das cidades. Issa diz que todos sabem que os migrantes são detidos nesses locais, mas ninguém faz nada para ajudá-los. Esses guetos, verdadeiras prisões, abrigam centenas de escravos. Dali eles só saem vendidos para fazer trabalhos forçados. Não recebem comida, água ou remédios, mas passam por sessões de tortura.

Segundo Issa, os mais fracos morrem em uma semana. O jovem malinês passou 29 dias no gueto de Sabah. Perdeu peso e chegou a pesar 45 kg, até conseguir escapar do inferno e ser ajudado por uma associação humanitária. Issa conta que os guetos de escravos mais atrozes são os de Bani Wadih e Misrata.

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