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Apesar dos desafios, a África é o novo eldorado

Apesar dos desafios, a África é o novo eldorado
 
Um vendedor de telefone nas ruas de Lagos, na Nigéria. PIUS UTOMI EKPEI / AFP

A moda passa mas o sonho fica. A África hoje, é o novo Eldorado. O Brasil era o “país do futuro”, mas o resto do mundo não acredita mais. Investidores e analistas decretaram que a China seria a próxima grande potência. Mas os chineses acumularam tantas dívidas, problemas internos e reviravoltas autoritárias, que o pessimismo está de volta: muita gente já se preocupa com o estouro da “bolha chinesa”.

Agora, a África é a bola da vez. O continente mais pobre do planeta tem tudo para dar certo: demografia favorável, riquezas naturais aos montes, populações jovens, criativas e entusiastas. As economias africanas não param de crescer apesar das guerras e dos governos corruptos e autoritários. Claro, a África não é uma só. Alguns países avançam, outros vão ficando para trás. Mas as oportunidades são imensas.

No entanto, os desafios são também imensos. Quase todas as economias africanas estão confinadas em produções de baixo valor agregado ou na simples exportação de petróleo ou minério. O conteúdo tecnológico da produção e das exportações é baixíssimo. Resultado: produtividade ínfima e um crescimento pífio do PIB per capita.

A África cresce, mas a pobreza diminui muito pouco. Pior ainda: numa economia global cada vez mais dominada pela tecnologia digital, o preço das matérias primas minerais e do petróleo não vai mais bater na lua. Os países africanos - com uma demografia galopante e uma urbanização selvagem – não poderão mais sobreviver só exportando recursos naturais. Também não terão condições de competir com as regiões do mundo produtoras de altíssima tecnologia e de bens industriais de alto valor agregado.

A solução é uma só: tentar promover uma produção com valor agregado crescente para poder encontrar nichos interessantes nas grandes cadeias de valor globais. Alguns países já escolheram esse caminho: Marrocos, Etiópia, Quênia, Gana ou Senegal. Sem isso não haverá riquezas para distribuir ou investir. E portanto, não haverá empregos para a massa de jovens que vem aí. Nem maneira de resolver a degradação das condições sociais nas grandes cidades, o problema da violência urbana ou do terrorismo.

Investimentos estrangeiros são necessários

As oportunidades estão justamente nesse esforço de modernização das economias africanas. Um “upgrade” para uma produção mais competitiva precisa de muitos requisitos que pedem pesados investimentos. O primeiro é sem dúvida a infraestrutura: estradas, portos, comunicações, redes digitais. Não há indústria ou serviços modernos sem isso. A África precisa muito das empresas e investimentos estrangeiros.

O segundo é sem dúvida a educação: formar uma massa de pessoas com as competências necessárias para se adaptar aos novos modelos produtivos. Não é por nada que os africanos estão à procura de acordos de cooperação educativa com os grandes centros de ensino mundiais. Outro obstáculo é a abertura das fronteiras. Para as economias africanas, é mais difícil comerciar com o resto do mundo do que com os vizinhos.

Para exportar é preciso importar

No mundo globalizado, para exportar é preciso importar. Com uma economia fechada é impossível encontrar bons nichos nas cadeias produtivas globais. A África já tem uma batelada de acordos de integração regionais. Mas agora é preciso que funcionem. Mas o problema central do continente ainda é a ineficiência da governança econômica. Sem um melhor clima de negócios, bons serviços financeiros, boas infraestruturas, respeito dos direitos de propriedade e justiça previsível e independente, os bilhões de dólares de investimentos estrangeiros (e até domésticos) não vão aparecer.

A boa notícia é que alguns países já entenderam esses desafios e estão dispostos a enfrentá-los. E que as oportunidades não são só para a China, o Estados Unidos, a Europa, a Índia ou Israel. O Brasil seria super bem-vindo em boa parte da África ocidental. Mas isso vai depender do apetite dos empresários e do governo brasileiros. Mas por enquanto, o clima no Pindorama está tão pesado que fica difícil juntar a fome com a vontade de comer.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI


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